O que acontece na minha bancada quando começo um perfume
Nenhum dos meus perfumes autorais nasceu porque eu estava pensando em lançar uma fragrância nova. Todos começaram com alguma coisa que eu estava vivendo.
De onde vêm as ideias
Faço terapia há algum tempo e gosto muito desse trabalho de autoconhecimento. Em diferentes momentos da minha vida, algumas questões que surgiram durante esse acompanhamento acabaram se tornando perfumes.
O Alma, por exemplo, nasceu de uma busca por quem eu realmente era, por baixo de tantos padrões e crenças que fui construindo ao longo dos anos. O Ártemis veio em outro momento, quando eu queria me aproximar de uma parte minha mais espontânea, feminina e selvagem.
Minha relação com os aromas já vinha da aromaterapia, área em que trabalhei antes de me dedicar à perfumaria natural. Eu gostava de estudar os óleos essenciais, suas propriedades e a relação que temos com os cheiros, mas sentia vontade de explorar tudo aquilo com mais liberdade criativa.

O primeiro contato com os aromas
Quando tenho uma ideia para um perfume natural, a primeira coisa que faço é abrir minha caixa de óleos essenciais. Vou escolhendo aqueles que acredito que tenham alguma relação com o que estou sentindo. É uma escolha muito pessoal. Existem aromas que despertam sensações que reconheço, mas que não consigo descrever. Às vezes, sinto que aquele cheiro tem alguma coisa a ver com o que estou procurando.
Depois dessa primeira seleção, separo os óleos essenciais entre notas de base, coração e topo, que são as diferentes partes da estrutura de um perfume. Vou cheirando, experimentando combinações e ajustando as proporções até encontrar uma mistura que me agrade. Isso eu faço com as três camadas (topo, coração, base).
Gosto de trabalhar cada parte separadamente e deixar as misturas descansarem antes de voltar a elas. Só depois começo a juntar tudo, experimentando como os aromas se comportam uns com os outros.
Meu ritmo na bancada
É um trabalho que exige bastante concentração. Dependendo do dia e do perfume que estou criando, coloco uma música que me ajude a acessar aquilo que quero expressar. Em outros momentos, prefiro o silêncio absoluto.
Como trabalho por etapas, organizo meu tempo para conseguir terminar aquilo que comecei. Se naquele dia vou trabalhar nas notas de base, por exemplo, quero ter tempo para me dedicar a elas até concluir aquela parte.
Depois de encontrar a composição completa, preparo uma pequena quantidade para acompanhar a maturação. Volto a sentir o perfume depois de alguns dias, avalio o resultado e vejo se estou satisfeita. Quando chego à formulação que quero, preparo a quantidade final.

Quando o perfume segue seu caminho
O nome pode surgir em qualquer etapa do processo, seja antes de eu começar, durante a criação ou só depois de o perfume estar pronto, mas o que realmente importa é que ele dialogue com aquilo que motivou a fragrância.
Embora eu crie esses perfumes a partir de experiências muito minhas, todos eles são colocados à venda. Gosto de pensar nesse movimento como um fluxo, em que cada perfume nasce de uma questão pessoal, mas, depois de pronto, segue seu caminho com quem escolhe usá-lo.

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