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Notas de topo, coração e fundo: como a pirâmide olfativa funciona na perfumaria natural

20 de out.
6 min de leitura

Você aplica um perfume e sente uma abertura fresca e talvez cítrica. Algum tempo depois, aquela primeira impressão diminui e outros aromas começam a aparecer com mais clareza. Horas mais tarde, a fragrância pode estar mais amadeirada ou terrosa.


Essa é a evolução que normalmente tentamos representar por meio da pirâmide olfativa, dividida em notas de topo, coração e fundo.


 

O que a pirâmide olfativa representa?


A classificação entre topo, coração e fundo está relacionada principalmente ao comportamento dos materiais ao longo do tempo.


A volatilidade tem um papel importante nisso, já que os componentes mais voláteis passam mais facilmente para o ar e participam com mais força na primeira impressão. Por outro lado, componentes menos voláteis tendem a permanecer por mais tempo. Apesar disso, a volatilidade, sozinha, não explica tudo o que sentimos. A percepção de uma substância também depende de sua intensidade odorífera, da concentração utilizada, das interações com os outros componentes da fórmula e do meio em que essa fragrância está.


Em um estudo publicado em 2009 na Chemical Engineering Science, Miguel Teixeira e colaboradores modelaram a evaporação e a difusão de misturas de perfume ao longo do tempo. Eles trabalharam com misturas contendo componentes representativos de notas de topo, coração e fundo e avaliaram formulações com etanol. O modelo considerou tanto o equilíbrio entre a fase líquida e o vapor quanto a difusão desses componentes pelo ar.


Os resultados ajudam a corrigir uma interpretação muito literal da pirâmide olfativa. Os componentes classificados como topo, coração e fundo não esperam “sua vez” para começar a evaporar. Todos podem começar a passar para a fase gasosa desde a aplicação, mas em velocidades diferentes e em proporções que mudam ao longo do tempo. Além disso, as interações entre os materiais da fórmula e a presença do próprio etanol podem modificar essa liberação.


O estudo também considerou a percepção do odor, e não apenas a quantidade de material evaporado. Para isso, os autores relacionaram a concentração dos componentes no ar aos seus limiares e intensidades odoríferas. Na prática, isso significa que uma substância presente em pequena quantidade no ar ainda pode ter bastante impacto olfativo se for perceptível em concentrações muito baixas.


Por isso, é mais adequado imaginar topo, coração e fundo como regiões de predominância ao longo da evolução do perfume, e não como três etapas que acontecem uma depois da outra.

 


Notas de topo, coração e fundo na perfumaria natural

 

Notas de topo: o primeiro contato com a fragrância


Ilustração vintage de limão, bergamota e laranja com folhas, flores e cortes dos frutos.

As notas de topo, também chamadas de notas de saída, costumam ter bastante presença logo depois da aplicação. Materiais mais voláteis aparecem com frequência nessa região e ajudam a formar a primeira impressão do perfume. É por isso que cítricos como limão, bergamota e laranja são exemplos clássicos de notas de topo. Na perfumaria natural, podemos encontrar nessa abertura não apenas cítricos, mas também determinadas facetas verdes, aromáticas, terpênicas ou especiadas.


Elas podem chamar bastante atenção nos primeiros minutos e depois diminuir relativamente rápido. Isso não significa que todos os componentes associados ao topo desapareçam de uma vez, já que a mudança é gradual.

Enquanto essa abertura perde intensidade, outros aspectos da fórmula passam a ocupar uma parcela maior daquilo que conseguimos perceber.

 

 

Notas de coração: quando outros aspectos ganham espaço


Ilustração em aquarela de rosa, gerânio, jasmim, cravo e canela sobre fundo creme.

O coração corresponde à região intermediária da evolução. Aqui encontramos matérias florais, frutadas e algumas especiarias. Por exemplo, rosa, gerânio, jasmim, cravo e canela.


Entretanto, dizer que algo é uma “nota de coração” não significa que esse aroma estava escondido dentro do perfume esperando sua vez de aparecer. Isso, porque ele já fazia parte da composição e se revelou na mudança de equilíbrio. Conforme alguns componentes mais voláteis diminuem no espaço acima da pele ou da fita olfativa, outros passam a ser percebidos com mais clareza.

 

 

Notas de fundo: aquilo que acompanha a secagem


Ilustração em aquarela de sândalo, patchouli, vetiver, benjoim e ládano, com madeiras, raízes, folhas e resinas.

As notas de fundo estão relacionadas aos materiais que apresentam maior permanência e costumam participar bastante das fases mais avançadas da secagem. Madeiras, raízes, resinas e materiais balsâmicos aparecem frequentemente nessa região, como o sândalo, patchouli, vetiver, benjoim e ládano.


Assim como acontece com as notas de coração, as notas de fundo também podem ser percebidas desde o começo, e sua participação relativa na fragrância vai mudando ao longo do tempo.


A mesma pesquisa de Teixeira e colaboradores, citada anteriormente ao explicar a pirâmide olfativa revela esse comportamento. Os mesmos componentes considerados de coração ou fundo podem estar presentes no ar desde os primeiros momentos após a aplicação. Com o passar do tempo, o que muda é a proporção em que esses componentes são liberados e percebidos e, com isso, muda também o odor do perfume.

 

 

Na prática, as três regiões se sobrepõem


Aqui a imagem da pirâmide pode acabar causando uma impressão um pouco enganosa. Quando olhamos para três blocos empilhados, parece que primeiro acontece o topo, depois o coração e finalmente o fundo. Na prática, há muito mais sobreposição.


Desde o momento da aplicação, temos vários componentes evaporando e chegando ao nosso olfato simultaneamente. Alguns fazem isso com maior facilidade; outros, mais lentamente. Alguns têm um odor tão intenso que conseguimos percebê-los mesmo em concentrações pequenas.


Além disso, os componentes de uma fórmula não se comportam necessariamente como se estivessem isolados. As interações dentro da mistura também podem influenciar sua liberação e sua percepção. Por isso gosto mais de pensar no topo, coração e fundo como partes de um movimento contínuo.

 

 

Um óleo essencial não é um único componente


Quando colocamos “bergamota”, “rosa” ou “olíbano” em uma pirâmide, estamos representando cada um deles como uma única matéria-prima. Porém, quimicamente, um óleo essencial é uma mistura de diversos compostos voláteis.


Estudos cromatográficos mostram com clareza como um óleo essencial pode ser quimicamente complexo. Em 2010, Tranchida e colaboradores analisaram o óleo essencial de tea tree por cromatografia gasosa e observaram cerca de 130 compostos voláteis no óleo fresco; no material oxidado, esse número chegou a aproximadamente 180.


Essa complexidade também aparece quando observamos o comportamento de evaporação. Em um estudo de 2004, Hazra e colaboradores avaliaram óleos essenciais como lavanda, laranja, cravo e eucalipto por técnicas termoanalíticas e os trataram como sistemas multicomponentes, formados por diversos constituintes voláteis com propriedades físicas diferentes. Isso ajuda a entender por que um óleo essencial não se comporta como uma única substância ao longo do tempo.


Na prática, mesmo quando um componente aparece em maior proporção, muitos outros continuam participando do perfil da matéria-prima. Por isso, um mesmo óleo essencial pode apresentar facetas diferentes à medida que seus constituintes vão sendo liberados e percebidos em ritmos distintos.

 

 

O olíbano mostra muito bem essa diferença


O óleo essencial de olíbano é um exemplo interessante porque sua composição e seu perfil podem variar bastante conforme a espécie de Boswellia, origem geográfica e matéria-prima utilizada.


Em uma análise de óleo essencial de Boswellia sacra, por exemplo, foram identificados dezenas de monoterpenos e sesquiterpenos. Nessa amostra específica, os monoterpenos representaram a grande maioria do óleo, com presença importante de compostos como limoneno. Já em outro estudo, amostras de B. sacra e B. carterii, o alfa-pineno apareceu como componente predominante, acompanhado por limoneno, mirceno, sabineno e outros constituintes. Até dentro da própria Boswellia sacra, amostras provenientes de diferentes regiões de Omã apresentaram diferenças importantes na proporção de alfa-pineno, limoneno e mirceno.


Sensorialmente, isso ajuda a explicar por que um óleo essencial de olíbano pode começar fresco, terpênico, conífero ou com uma impressão levemente cítrica e depois revelar aspectos mais secos, amadeirados e resinosos.


Na perfumaria, alguns fornecedores classificam o óleo essencial de olíbano como uma nota de fundo, mas ao mesmo tempo descrevem nele uma abertura cítrica bastante perceptível. Essa aparente contradição mostra os limites de tentar colocar uma matéria-prima natural inteira em uma única gaveta.

 

 

Então onde colocamos uma matéria-prima natural na pirâmide?


A pirâmide continua sendo útil para mostrar em que parte da evolução de determinado óleo essencial ou absoluto, por exemplo, tende a ter maior importância dentro daquela composição.

Às vezes uma matéria-prima que parecia muito evidente sozinha quase desaparece dentro da fórmula. Outra, utilizada em quantidade pequena, atravessa várias horas da evolução e continua reconhecível na secagem. É por isso que acompanhar uma fórmula ao longo do tempo faz parte do trabalho de criação.


Uma fita cheirada imediatamente depois de preparada mostra a abertura. Voltar a ela depois permite perceber relações que não estavam tão claras naquele primeiro momento.

A pirâmide ajuda a organizar tudo isso visualmente. Porém, especialmente na perfumaria natural, talvez a imagem de uma espiral represente melhor o que realmente sentimos: as fases existem, mas se encontram, se sobrepõem e vão mudando continuamente enquanto o perfume evolui.

 



Referências utilizadas

Teixeira MA, Rodríguez O, Mata VG, Rodrigues AE. The diffusion of perfume mixtures and the odor performance. Chemical Engineering Science. 2009;64(11):2570–2589. DOI: 10.1016/j.ces.2009.01.064. 

Kleoff M, Kiler P, Heretsch P. Synthesis of odorants in flow and their applications in perfumery. Beilstein Journal of Organic Chemistry. 2022;18:754–768. DOI: 10.3762/bjoc.18.76. 

Tranchida PQ, Shellie RA, Purcaro G, Conte LS, Dugo P, Dugo G, Mondello L. Analysis of fresh and aged tea tree essential oils by using GC×GC-qMS. Journal of Chromatographic Science. 2010. 

Hazra A, Alexander K, Dollimore D, Riga A. Characterization of some essential oils and their key components: Thermoanalytical techniques. Journal of Thermal Analysis and Calorimetry. 2004;75:317–330. DOI: 10.1023/B:JTAN.0000017352.86803.6D. 

Al-Harrasi A, Al-Saidi S. Phytochemical analysis of the essential oil from botanically certified oleogum resin of Boswellia sacra (Omani Luban). Molecules. 2008;13(9):2181–2189. DOI: 10.3390/molecules13092181.  

Woolley CL, Suhail MM, Smith BL, Boren KE, Taylor LC, Schreuder MF, et al. Chemical differentiation of Boswellia sacra and Boswellia carterii essential oils by gas chromatography and chiral gas chromatography-mass spectrometry. Journal of Chromatography A. 2012;1261:158–163. DOI: 10.1016/j.chroma.2012.06.073. 

 Al-Saidi S, Rameshkumar KB, Hisham A, Sivakumar N, Al-Kindy S. Composition and antibacterial activity of the essential oils of four commercial grades of Omani luban, the oleo-gum resin of Boswellia sacra Flueck. Chemistry & Biodiversity. 2012;9(3):615–624. DOI: 10.1002/cbdv.201100189. 


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