Óleos essenciais, corpo e emoções: o que acontece quando sentimos um aroma?
É muito comum encontrar explicações de que lavanda acalma e alecrim estimula, quando falamos de óleos essenciais e emoções. Mas será que a relação entre um aroma, o corpo e aquilo que sentimos funciona de maneira tão direta?
Ao inalarmos um aroma, não percebemos apenas o cheiro em si. Na prática, existe um caminho muito mais complexo. O cérebro interpreta aquele estímulo a partir de diferentes referências, como por exemplo despertar lembranças, criar associações e se misturar ao estado emocional e corporal que estamos vivendo naquele momento.
Por isso, talvez seja mais interessante perguntar não apenas “o que este óleo faz?”, mas também: “O que acontece em mim quando eu encontro este aroma?”
Cheirar é um acontecimento corporal
Antes mesmo de falarmos sobre emoção, vale entender uma coisa: o olfato começa no corpo. Quando inalamos um aroma, moléculas de odor presentes no ar entram em contato com receptores localizados no epitélio olfatório. A partir daí, a informação é transformada em sinais nervosos e começa a ser processada pelo sistema olfativo. Esses sinais não ficam restritos a uma área responsável simplesmente por identificar: “isso é rosa” ou “isso é alecrim”.

O processamento olfativo envolve uma rede de regiões cerebrais, incluindo o córtex piriforme, a amígdala e outras estruturas relacionadas à memória e à atribuição de significado aos estímulos. Um estudo publicado na Nature em 2024 conseguiu registrar diretamente neurônios humanos respondendo a diferentes odores no córtex piriforme, amígdala, córtex entorrinal e hipocampo. Isso ajuda a entender por que um cheiro pode fazer muito mais do que simplesmente ser reconhecido. Ele pode ser percebido como agradável ou desagradável, pode nos lembrar de alguém ou até mesmo nos transportar para um lugar. Perceba que ele pode provocar uma sensação antes mesmo de conseguirmos explicar racionalmente de onde ela veio.
Por isso, gosto de pensar que cheirar é o organismo inteiro encontrando uma informação sensorial.
Emoção e corpo conversam em duas direções
Esse é um dos pontos que Shirley Price, escritora do livro Aromaterapia e as Emoções, aborda as emoções. Ela parte da ideia de que não somos formados por partes completamente separadas. Pensamento, emoção e corpo estão continuamente interagindo.
Hoje sabemos que respostas ao estresse podem envolver simultaneamente sistemas nervosos, endócrinos e imunológicos. Em experimentos com humanos, situações de estresse foram capazes de produzir alterações em hormônios relacionados à resposta ao estresse e em determinados mediadores imunológicos. Isso não quer dizer que toda emoção cause uma doença, nem que um óleo essencial seja capaz de tratar essas alterações por conta própria. A ideia aqui é apenas mostrar que o que sentimos e o que acontece no corpo não são processos totalmente separados.
O aroma é um estímulo externo, mas a forma como nosso corpo e nosso cérebro respondem a ele também passa pela maneira como percebemos aquele cheiro. Em um estudo com odores desagradáveis, pesquisadores observaram alterações relacionadas à atividade do sistema nervoso simpático. Eles viram que a resposta variou de acordo com o quanto aquele odor era percebido como desagradável, mostrando que a avaliação subjetiva do cheiro participava da resposta fisiológica. Isto é, não existe apenas uma molécula produzindo uma reação mecânica e sim uma pessoa percebendo aquela molécula.
O corpo também muda a maneira como sentimos um aroma
Costumamos pensar em um processo linear de cheiro, cérebro e emoção. Entretanto, o caminho inverso também acontece. O estado em que estamos pode modificar nossa própria percepção olfativa. Como vimos no estudo mencionado anteriormente, a resposta individual dos participantes estava relacionada à resposta individual de seu cortisol. Ou seja, não chegamos diante de um aroma como uma folha em branco, já chegamos com nossa própria história redigida.
Talvez, por isso, um óleo essencial que você adora em determinado momento da vida possa parecer menos interessante anos depois. A forma como percebemos um aroma também depende do momento que estamos vivendo quando entramos em contato com ele. Além disso, existe ainda a maneira particular de como cada pessoa tende a perceber e responder ao mundo. Valerie Ann Worwood explora bastante essa ideia no livro The Fragrant Mind, relacionando aromas, estados emocionais e personalidade. Isso amplia ainda mais a discussão, porque duas pessoas podem dizer que estão vivendo a mesma emoção e, ainda assim, estar passando por experiências muito diferentes. A palavra usada para descrever o que sentem pode ser a mesma, mas a forma como cada uma vive aquilo não é necessariamente igual.
Por que o mesmo óleo essencial não produz a mesma experiência em todo mundo?
Se duas pessoas cheiram o mesmo óleo essencial, o estímulo olfativo pode ser semelhante, porém isso não significa que a experiência subjetiva será igual. Por isso, tenho muita dificuldade em seguir tabelas genéricas do tipo: estresse - bergamota ou irritabilidade - camomilas.
Elas servem como uma primeira referência sobre usos tradicionalmente atribuídos a determinadas matérias aromáticas. O problema começa quando a referência vira uma receita e a pessoa desaparece do raciocínio. Já que talvez alguém esteja ansioso, mas ele pode não gostar do cheiro escolhido para “acalmar”.
Valerie Ann Worwood leva essa discussão para outro caminho em The Fragrant Mind. Em seu modelo chamado Aroma-Genera, ela atribui aos óleos essenciais características semelhantes a personalidades humanas. Não se trata de uma classificação científica da personalidade, mas de uma maneira criada pela autora para olhar além de propriedades isoladas como “calmante” ou “estimulante”. Um óleo passa a ser observado de forma mais ampla, quase como um conjunto de características, e não apenas como uma substância ligada a um único efeito emocional.
Então, como pensar a escolha de um óleo essencial?
Para mim, então, a pergunta não deveria começar em: “Qual óleo serve para esta emoção?”. Na verdade, precisamos investigar como cada pessoa reage ao cheiro escolhido.
Outra possibilidade é não começar a escolha apenas pelo que queremos diminuir. Podemos também pensar no estado que desejamos favorecer. Em vez de procurar somente um óleo “para ansiedade”, por exemplo, posso me perguntar se naquele momento busco mais tranquilidade, segurança, presença, disposição ou clareza. Já que saímos de uma tentativa de encaixar uma emoção em uma receita e começamos a observar com mais cuidado aquilo de que a pessoa realmente necessita.
O óleo essencial deixa de ser uma resposta pronta e passa a fazer parte de uma investigação. É, por isso, que aroma, corpo, emoção e individualidade precisam ser colocados juntos no raciocínio.
Referências
Kehl, M. S. et al. (2024). “Single-neuron representations of odours in the human brain.” Nature, 634, 626–634.
Koelsch, S.; Boehlig, A.; Hohenadel, M.; Nitsche, I.; Bauer, K.; Sack, U. (2016). “The impact of acute stress on hormones and cytokines and how their recovery is affected by music-evoked positive mood.” Scientific Reports, 6, 23008.
Hirasawa, Y.; Shirasu, M.; Okamoto, M.; Touhara, K. (2019). “Subjective unpleasantness of malodors induces a stress response.” Psychoneuroendocrinology, 106, 206–215.
Ai, Y.; Hummel, T.; Nie, H.; Yang, J.; Han, P. (2023). “Reduced neural responses to pleasant odor stimuli after acute psychological stress is associated with cortisol reactivity.” NeuroImage, 284.
Joussain, P.; Rouby, C.; Bensafi, M. (2014). “A pleasant familiar odor influences perceived stress and peripheral nervous system activity during normal aging.” Frontiers in Psychology, 5, 113.

