Perfume botânico x perfume convencional: qual é a diferença?
A principal diferença entre um perfume botânico e um perfume convencional é que eles não são feitos com a mesma paleta de matérias-primas.
Na perfumaria convencional, uma fórmula pode reunir ingredientes naturais e moléculas aromáticas produzidas por diferentes processos. Já na perfumaria botânica, a criação acontece a partir de matérias-primas aromáticas de origem vegetal.
E isso muda bastante coisa no resultado. Muda o que é possível construir, a forma como a fragrância evolui, sua projeção, sua duração e até o jeito de formular. Não acho muito útil transformar essa comparação numa disputa entre “melhor” e “pior”. São caminhos diferentes dentro da perfumaria.
O que é um perfume convencional?
A perfumaria convencional trabalha com uma paleta muito ampla. Uma mesma fórmula pode reunir matérias-primas naturais, como óleos essenciais e absolutos, e moléculas aromáticas produzidas por diferentes processos.
Essa variedade dá ao perfumista muitos recursos de criação. Algumas moléculas ajudam a construir efeitos que seriam difíceis de obter apenas com materiais naturais; outras entram pela projeção, pela estabilidade ou pela permanência que conseguem trazer à fragrância.
Portanto, chamar um perfume convencional simplesmente de “sintético” acaba simplificando demais o que acontece numa fórmula. Muitas fragrâncias combinam materiais naturais e sintéticos no mesmo perfume.
E o que é um perfume botânico?
Na perfumaria botânica, eu trabalho com matérias-primas aromáticas que vêm das plantas: óleos essenciais, absolutos, resinas, bálsamos, extratos, tinturas e outros materiais naturais.
Essas matérias-primas costumam trazer várias nuances ao mesmo tempo. Uma resina, por exemplo, pode ser doce, quente, balsâmica e amadeirada. Um cítrico pode ter frescor, amargor, doçura e até um aspecto mais verde.
Isso muda bastante a forma de formular. Em vez de pensar apenas no efeito que quero acrescentar, preciso observar tudo o que aquela matéria-prima traz junto e como ela se comporta quando encontra as outras. É uma das coisas que mais gosto nesse tipo de perfumaria, já que cada material já chega à bancada com muita coisa para revelar.
Um óleo essencial não é um único cheiro

A em laranja, por exemplo, parece fácil reconhecer aquele cheiro cítrico, fresco e suculento. Mas o aroma do óleo essencial de laranja não vem de uma única substância.
O limoneno está presente em grande quantidade e participa bastante do caráter cítrico que reconhecemos. Só que ele não está sozinho. O óleo essencial reúne vários outros constituintes, e é a combinação entre eles que forma as nuances que percebemos como doçura, frescor, casca, luminosidade ou um aspecto mais seco.
Na perfumaria convencional, é possível trabalhar com o limoneno isoladamente quando aquele efeito específico interessa à fórmula. Quando uso o óleo essencial de laranja na perfumaria botânica, levo para a composição o conjunto inteiro.
É por isso que uma matéria-prima natural nunca entra na fórmula trazendo uma única característica. Ela já chega à bancada com várias facetas, e todas elas podem mudar quando encontram os outros materiais.
A natureza também varia
Trabalhar com matérias-primas naturais também significa conviver com pequenas variações. Dois óleos essenciais com o mesmo nome podem não cheirar exatamente iguais.
A espécie e a variedade da planta, o lugar onde ela foi cultivada, o clima, a época da colheita e até o método de extração podem alterar seu perfil aromático.
Então, quando chega um novo lote de uma matéria-prima, não basta substituir o anterior na fórmula. Eu preciso cheirar, comparar e observar se aquele material continua se comportando da mesma forma dentro da composição. Isso também explica por que podem existir pequenas diferenças entre lotes de um mesmo perfume botânico. Não é falta de cuidado na formulação. É uma característica de trabalhar com matérias-primas naturais, que não são completamente padronizadas.
O perfume botânico também tem limitações
Trabalhar apenas com matérias-primas botânicas também coloca alguns limites na criação. A perfumaria convencional tem à disposição moléculas que podem ser escolhidas justamente por características como projeção, difusão, estabilidade ou longa permanência na pele. Na perfumaria botânica, eu preciso construir esses efeitos com os materiais naturais disponíveis.
Isso significa que algumas fragrâncias podem ter projeção mais discreta, permanecer menos tempo ou pedir reaplicação ao longo do dia. Em outras, resinas, bálsamos, madeiras e raízes conseguem trazer bastante permanência. Para mim, isso não diminui o perfume. Só muda a linguagem e os recursos com que ele é construído.
Então por que escolher a perfumaria botânica?

Para mim, o interesse está justamente em trabalhar dentro de uma paleta mais limitada e, por isso, precisar conhecer melhor cada matéria-prima. Um cítrico deixa de ser apenas “um cítrico”. Bergamota, limão, mandarina, petitgrain e grapefruit podem ocupar lugares muito diferentes numa fórmula. O mesmo acontece com flores, madeiras, resinas e folhas.
Quanto mais eu trabalho com esses materiais, mais percebo que formular não é procurar rapidamente um ingrediente que entregue um efeito específico. É entender o que cada matéria-prima traz, como ela muda ao lado das outras e que espaço passa a ocupar dentro da composição. É esse tipo de atenção que me interessa na perfumaria botânica.
Se você quiser conhecer esse universo com mais profundidade, escrevi também sobre o que é perfumaria botânica, as matérias-primas que fazem parte dela e a forma como uma fragrância botânica é construída.

