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Perfume botânico, emoções e intenção: o que queremos sentir quando escolhemos uma fragrância?

8 de set.
5 min de leitura



Eu comecei a perceber isso primeiro nos perfumes que escolho para mim. Tem dia em que uso um simplesmente porque gosto do cheiro. Em outros, procuro alguma coisa mais específica, por exemplo, quero algo mais delicado, mais vivo, mais sensual ou até mais estranho.


Não acho que o perfume crie esse estado em mim, mas alguns aromas acabam se ligando a determinadas memórias, sensações e momentos. E essas relações são muito pessoais.


Foi daí que comecei a pensar que uma fragrância também pode nascer de uma intenção. Se alguém me diz, por exemplo, que quer se sentir mais feminina, eu não procuro uma matéria-prima que “represente feminilidade”. Quero entender quais aromas fazem essa pessoa reconhecer essa sensação nela mesma.

 

Um perfume pode começar por uma intenção

Na hora de escolher um perfume, normalmente a gente parte do que já conhece. Eu gosto de floral, gosto de cítrico, não gosto de perfume muito doce. Isso continua importando, mas nem sempre começo por aí.


Às vezes penso no que estou querendo naquele momento. Posso estar procurando um perfume mais sensual, mais delicado, ou até mesmo alguma coisa que me lembre uma versão minha que anda meio esquecida.


Quando estou criando, isso vira uma pergunta. Se alguém me diz que quer um perfume ligado à feminilidade, por exemplo, eu não vou procurar quais matérias-primas “representam o feminino”. Quero saber outra coisa: quais aromas fazem essa pessoa se sentir mais conectada com a própria feminilidade? A resposta só aparece quando ela começa a cheirar.

 

Meu Ártemis nasceu assim


Frasco do perfume botânico Ártemis, criação autoral da Bridda Apotheca.

Quando criei o Ártemis, eu queria me aproximar da minha feminilidade e espontaneidade. Comecei por aí, sem saber ainda quais matérias-primas entrariam.


Fui cheirando, testando e percebendo o que fazia sentido para mim. Algumas coisas que eu imaginava no começo não ficaram. Outras apareceram no caminho e acabaram sendo importantes.


A intenção serviu como direção. A fórmula veio depois, conforme o perfume foi tomando forma na bancada.

 

Existe também o movimento contrário: o que quero transmitir?

Um perfume também pode ser escolhido pela impressão que a pessoa quer deixar.

Uma fragrância mais próxima da pele comunica uma presença diferente de um perfume escuro, resinoso e expansivo. O cheiro passa a fazer parte da apresentação, junto da roupa, da maquiagem, dos acessórios e da própria maneira de ocupar aquele momento.


Isso não significa que todas as pessoas vão interpretar a fragrância da mesma forma. A percepção olfativa continua sendo individual. Mesmo assim, a escolha do perfume também pode fazer parte da maneira como alguém quer se apresentar naquele momento.

 

E onde entram as matérias-primas botânicas?

As matérias-primas naturais mudam bastante conforme a gente vai cheirando. Uma rosa pode ter um lado verde, uma resina pode ficar mais seca depois de alguns minutos, um cítrico pode ser mais amargo do que fresco. Nem sempre a primeira impressão dá conta do aroma inteiro.


Por isso, durante uma criação, algumas escolhas só aparecem na prática. Uma matéria-prima que parecia perfeita para a ideia inicial pode não funcionar na fórmula. Outra pode surgir sem ter sido planejada e acabar levando o perfume para um caminho interessante.

 

Criar um perfume pode começar antes da fórmula

Mulher cheirando flores brancas, em uma experiência olfativa ligada à percepção dos aromas.

Antes de pensar em notas, proporções ou estrutura, pode existir uma ideia mais simples: por que esse perfume está sendo criado?


Pode ser para marcar uma fase, guardar uma memória, explorar uma imagem ou simplesmente descobrir como determinada atmosfera poderia ganhar cheiro.


A partir daí, as matérias-primas começam a ser testadas. Algumas funcionam como eu imaginava, já outras, não. Primeiro vem a ideia, depois o cheiro começa a mostrar o que pode ser feito com ela.



Os aromas sempre carregaram uma intenção

O uso dos aromas sempre esteve ligado a contextos muito diferentes. Na Bíblia, matérias como mirra, canela, cássia e olíbano aparecem em preparações ligadas ao sagrado. Em outros trechos, o perfume aparece junto do corpo, do desejo e da intimidade.


Também existem relatos históricos em que o cheiro fazia parte da forma de se apresentar. Cleópatra é descrita chegando a Tarso em uma embarcação perfumada. Napoleão ficou conhecido pelo uso frequente de Eau de Cologne. Na corte de Elizabeth I, luvas perfumadas eram presentes valorizados.


São usos muito diferentes entre si, mas todos mostram que o aroma já ocupava um lugar que ia além de simplesmente “cheirar bem”.



Perfume botânico e emoções: uma forma de linguagem

A relação entre perfume botânico e emoções não funciona da mesma forma para todas as pessoas. Uma das coisas que mais me encanta na perfumaria é perceber que uma ideia pode acabar virando cheiro. Às vezes começa com uma lembrança e outras, com uma imagem, uma sensação ou alguma coisa difícil até de explicar. Assim, aos poucos, aquilo vai aparecendo nas escolhas da fórmula.


Também acontece quando escolhemos um perfume para usar. Nem sempre existe uma grande razão por trás. Tem cheiro que combina com uma roupa, com um lugar, com uma fase da vida ou simplesmente com a vontade daquele dia.


E cada pessoa vai ler esse perfume a partir das próprias referências. O que parece delicado para uma pode trazer uma lembrança completamente diferente para outra. Talvez o perfume consiga dizer alguma coisa sem precisar dizer exatamente o quê.


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